Pular para o conteúdo principal

Quero receber Newsletter de Danielle SV

* indica obrigatório

Mailchimp intuitivo

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz - Médico

 


Sim, planejamento e gestão é para todos e para todas as profissões. Abaixo entrevista feita com Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz, médico, Medicina de Família e Comunidade (MFC) e Acupunturista.


DSV: Carlos, porque Medicina?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz CilgenfritzNão vou dizer o clichê de salvar vidas. Vendo retrospectivamente acredito que trabalhar com o que trabalho não foi planejado. Foram situações que fui vivenciando que me trouxeram para cá. Desde criança eu dizia que queria ser médico. Sinceramente não sei de onde tirei isso. Cresci no interior, filho de professores, neto de uma professora e um alfaiate. Não tive exemplos de médico na família. Não tive experiência de adoecimento importante na família durante a infância. A minha memória mais remota de médico era o Dr. Silvano, que era meu pediatra - mas que eu não tinha um vínculo marcante e que reconhecesse que foi por conta especificamente dele. Cresci com a ideia de ser médico porque eu gostava de estar com pessoas e ouvir histórias. 


DSV: Por que Médico de Família e Acupunturista?


Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Hoje eu reconheço que estou no lugar onde estou porque não tem outro espaço onde eu possa me enquadrar. A faculdade para mim foi muito difícil - é um ambiente muito competitivo, com pessoas competitivas. O ambiente hospitalar era muito difícil para mim. Hoje, eu entendo que o ensino médico que eu tive por 6 anos não se encaixava na minha forma de trabalhar. Recebi o diagnóstico de Altas Habilidades só aos 32 anos e entendi que muito do meu sofrimento vinha da forma que eu não concordava na aprendizagem médica. A gente vê a diabetes, a vesícula, o câncer, a anemia. Mas a gente não para nesses 6 anos para ver o indivíduo que está ali. Com isso eu cresci na graduação achando que eu faria psiquiatria: na verdade, eu via na psiquiatria o estilo de trabalho que acredito, que é ouvir as pessoas, trabalhar baseado no vínculo, baseado na longitudinalidade. 


Eu só entendi que este tipo de trabalho que acredito existe, mas apenas a Medicina de Família e Comunidade (MFC) é a especialidade que eu consigo ser útil. Eu gosto de estudar doenças, entender o mecanismo da coisa, os tratamentos, os diagnósticos diferenciais e o acompanhamento. Mas muito mais do que apenas isso tem o indivíduo que experimenta a doença, a família que convive e o impacto comunitário que isso tem. Trato asma, hipotireoidismo, hipertensão e muitas outras coisas porque só a MFC permite que eu veja na perspectiva da pessoa e não da doença. 


A Acupuntura entrou de forma despretensiosa na minha vida. Durante a residência, a minha colega Mayara (cujo livro mais recente eu indiquei ali na lista) estava concluindo a pós. O meu contato começou na verdade pelo agulhamento seco. Eu tinha na residência uma demanda muito grande de pessoas com dor crônica. Se a gente parar para ver os dados, a dor - principalmente musculoesquelética-  é uma das queixas mais frequentes no ambulatório do generalista e uma das causas mais comuns de abono ao trabalho e perda de qualidade de vida. Prescrever dipirona e fisioterapia para todo mundo não é a solução - e dentro do Sistema Único de Saúde não é sustentável porque mesmo botando toda a grana possível, não existe recurso para todo mundo. Daí eu comecei a estudar para ser o mais resolutivo possível. Eu comecei a estudar síndrome dolorosa miofascial e agulhamento seco na residência. Para entrar na acupuntura e Medicina Chinesa foi um pulo: Comecei a pós-graduação no segundo ano da residência pela Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), quando concluí, fiz a prova de titulação pela Associação Médica do Brasil (AMB) e Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA) em 2022.


Médico de Família tem isso. A literatura refere que somos a especialidade médica que idealmente consegue resolver de 80 a 90% das demandas em saúde independentemente de gênero e idade. Mas para manter isso, cada MFC deve "construir sua maleta" de acordo com sua realidade. Isso é muito estranho (mas faz todo sentido), porque o Médico de Família que "habita" em mim precisa do Acupunturiatra para ser resolutivo. Mas o Acupunturiatra precisa do Médico de Família para não ser tão específico. Acredito que o meu melhor é pegar o potencial das duas fontes. 

DSV: Em qual momento sei que preciso de um profissional como você para melhorar e potencializar meu cotidiano de vida?


Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: A Medicina de Família e Comunidade é a especialidade médica que tem uma perspectiva de crescimento nos próximos anos. Eu brinco com meus pacientes que eu sou uma peça rara, porque somos apenas 7149 médicos especializados (com RQE ativo) no Brasil pelo último Censo do CFM e crescemos 30% nos últimos quatro anos segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). 


Quanto tu me pergunta "em qual momento sei que preciso", reforça a ideia de "qual doença ou problema eu preciso ter". A gente tem o costume de sempre se enquadrar em algum especialista: diabetes o endócrino vê, cefaleia o neuro dá conta, médico da "mulher" é o ginecologista. O geriatra vê o idoso e toda criança precisa do seu pediatra. Eu acho que seguindo esta lógica, vou responder parafraseando uma professora minha da residência (Dra. Carmen Fernandes): "O Médico de Família e Comunidade é o especialista do comum". Desta forma, a gente é o especialista de doenças metabólicas, infecciosas, respiratórias, digestivas, ginecológicas, cardiológicas, urológicas, dermatológicas, hematológicas e de qualquer outro sistema que seja comum e prevalente independentemente de idade e gênero. Por isso que lá na minha UBS eu faço pré-natal, puericultura, acompanho diabetes, hipotireoidismo, faço os rastreios de cânceres preconizados pelo Ministério da Saúde, prescrevo medicação para HIV, Sífilis, reviso situação vacinal. Não tem glamour nenhum de Dr. House, mas a minha especialidade está aí para ser resolutiva pelo menos em 80% dos casos. No momento que isso começa ficar fora do comum, eu compartilho o cuidado com um especialista focal. 


No meu consultório é um pouco diferente. Como falei anteriormente, o Médico de Família é um clínico qualificado que deve se adequar ao perfil da sua população. Eu trabalho majoritariamente com pessoas com dor crônica. Não existe formalmente este termo - Médico de Família com habilidades específicas - mas eu estou um Médico de Família de pessoas com dor crônica prevalentes. É um perfil de paciente diferente. Quando a gente fala do cenário de dor crônica existe um grande problema que é a coordenação do cuidado: geralmente pessoas com dor crônica já foram no ortopedista, reumato, neuro, fisioterapia, dentista, terapeuta ocupacional, psicólogo e vive numa grande colcha de retalho e não tem nenhum profissional que costure tudo isso - e isso muitas vezes é a chave de um tratamento de sucesso. Cada especialista focal (e o acupunturiatra se enquadra nisso) vai ver dentro da sua perspectiva e naquilo que foi treinado. Se foge disso, "não tem muito o que fazer".

 
Por isso, que dentro da barriga da mãe até o finalzinho, toda pessoa merece um Médico de Família porque em todas as situações um Médico de Família tem muito a contribuir e no cenário hoje onde há segmentação do cuidado (que até certos casos são necessários), ter um profissional que vai contra isso e enxergue o indivíduo e sua família por trás da doença é muito necessário (inclusive em desfechos de saúde). 


DSV: Quais os benefícios em consultar um médico com suas especializações?


Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Hoje, a gente tem tanto o discurso de gestão do tempo, sustentabilidade. Hipotireoidismo, asma, enxaqueca, fibromialgia, síndrome do intestino irritável, ansiedade/depressão, hipertensão são condições comuns em mulheres na casa dos 40 anos - Se você for ver toda conhecida sua tem alguma dessas doenças ou mais de uma. Fora que aos 40 anos existem alguns rastreios e abordagens que devem ser individualizadas: coleta de citopatológico, mamografia, avaliação anual de Pressão Arterial, rastreio de obesidade/ diabetes, rastreio de dislipidemias, tabagismo. Agora imagina. É necessário um médico para cada, isso? Imagina o gasto (tempo, dinheiro seu, dinheiro do convênio, dinheiro do governo) que isso gera. A gente tem a cultura do "meu ginecologista" aqui no Brasil, mas se formos ver em outros sistemas, como o inglês, ginecologista é um cirurgião, porque as outras demandas clínicas como tratamentos mais "simples", rastreios, pré-natal de risco habitual são feitos pelos "General Practitioner" e outras categorias como enfermeiras obstéricas e parteiras (midwives). Ginecolgista se atém naquilo que ele foi capacitado, treinado exaustivamente: manejo cirúrgico e obstétrico de risco. 


Um grande trunfo que ainda temos é a longitudinalidade. Tem estudos que mostram que ter um profissional de referência (independentemente da área) diminui risco de internações, abuso de medicamentos, uso racional de exames e aumenta a satisfação dos usuários com o sistema. É realmente perceptível que quanto mais tempo conhecemos os pacientes, mais proveitosa é a consulta e mais bem empregado é o tempo. Eu trabalhei em mais de uma UBS. Geralmente os 3 primeiros meses são muito difíceis porque você está conhecendo a realidade local. Aos 6 meses começa ter uma ordem e quando fecha um ano já começa a perceber que o trabalho fica mais fluido e quando as pessoas começam a confiar no seu trabalho é muito recompensador. Quando um paciente com vínculo marca uma consulta "só pra ouvir sua opinião" porque o especialista focal quer iniciar outra medicação e você dá sua chancela é muito recompensador.

Agora, falando em acupuntura, a minha vivência tem sido incrível. Hoje a gente tem uma epidemia de abuso de analgésicos e medicamentos para dormir. Muitos pacientes que me procuram em função de acupuntura ainda são aqueles que receberam a dureza do "não tem mais o que fazer" ou, nos casos de pessoas com dor crônica muitas vezes devido a pontos-gatilho vem como se eu fosse a "última esperança". Exatamente porque essas pessoas passaram por profissionais que veem no espectro da doença. Realmente pode ser que do ponto de vista medicamentoso não tenha o que fazer, mas isso não dita que todo o tratamento é inválido. O uso da acupuntura (e entender o adoecimento pela perspectiva da Medicina Tradicional Chinesa) enriqueceu minha abordagem clínica de uma maneira que hoje a medicina que eu faço é mais ampla do que a  que eu aprendi na faculdade. 




DSV: As suas especializações são para quem?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Não sei se é "culpa do signo", mas eu acabei indo em especializações não convencionais. Acredito que quem se beneficia são pessoas que também não querem "mais do mesmo". Existe uma demanda muito grande de pessoas que precisam de alguém que coordene seus cuidados assim como uma demanda muito grande de pessoas que não querem, não podem ou cansaram de tratar tudo com remédio - o que é contraditório, porque tem gente que ainda procura o remédio certo na pílula milagrosa. 
No consultório a maioria dos meus pacientes tem como pano de fundo a dor crônica e de alguma forma a acupuntura está dentro do plano de tratamento. Muitas vezes são pessoas que não se sentem contempladas com seus especialistas focais. A dor tem um componente biológico, mas também psicológico, social e econômico embutido que precisa ser acolhido. E quem acolhe isso? Quando a gente fala de resolutividade muitas vezes não é só dar a prescrição assertiva, é ponderar, conversar e elencar possibilidades baseada nos sentimentos, ideias, funcionalidade e expectativa da pessoa e família. 





DSV: Qual a importância do planejamento para noites mais tranquilas e dias sem dor?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Ter um plano bem estruturado e implementá-lo pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, que são frequentemente associados a problemas de sono e dor crônica. 
Vou parecer mais uma manchete de revista saúde, mas é que não tem muita escapatória. Acredito que existem 4 esferas que devem ser abordadas. 

1) Rotina de sono: Precisamos planejar e seguir uma rotina de sono regular. É muito difundida a ideia de "recuperar o sono no final de semana", mas hoje se sabe que a variação de horas de sono nos dias livres e nos dias de trabalho (o tal Jet leg Social) está associada com desfechos como flutuações de humor, risco cardiovascular, alterações metabólicas e serve até mesmo como gatilho para crises de dor crônica como fibromialgia e enxaqueca. 

2) Gerenciamento de estresse: O estresse pode piorar condições crônica devido a uma série de processos biológicos que ocorrem no corpo, como a ativação do sistema nervoso simpático (estado de alerta), desencadeando uma cascata de eventos que resultam em liberação de substâncias como a noradrenalina, causando vasoconstrição e outros eventos que podem desencadear dor. O estresse crônico pode aumentar também a sensibilidade à dor, amplificando a  percepção de dor.

3) Alimentação saudável e exercícios regulares: Fazer o possível dentro da sua realidade. Uma dieta equilibrada e atividade física regular contribuem muito para redução de dores crônicas e o processo inflamatório muitas vezes associado. 

4) Gestão do tempo: Planejar as atividades, estabelecer metas e prioridades realistas pode reduzir a pressão e a ansiedade que a sensação de "sempre enxugar gelo" pode dar. Viver neste círculo vicioso como o Coelho da Alice pode resultar em tensão muscular e dores osteomusculares por tensão e sobreuso. 

O planejamento de vários aspectos da vida podem contribuir significativamente para noites mais tranquilas e dias com menos dor. Muito disso eu abordo nas sessões de acupuntura com meus pacientes. Não adianta ir na sessão e se dedicar naquele tempo, mas se entre as sessões ainda se mantém o que te deixa doente. 

DSV: Porque você entende que a gestão, bem feita, é importante para um profissional como você?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: A gestão da agenda é a base da Atenção Primária (e acaba sendo também da Medicina de Família e Comunidade) . Uma Unidade Básica de Saúde (postinho) serve uma população adscrita dentro de um território físico e dentro deste território é loteado para que cada equipe básica (composta por agente comunitário de saúde, médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e às vezes dentista) seja a responsável tanto do ponto de vista de vigilância quanto de serviço de saúde. A gestão é primordial porque cada equipe de Saúde da Família precisa saber quantos daquela população acessa o posto e quanto desta população são de crianças, adultos, idosos além da gestão de programas como número de gestantes, crianças até 2 anos, hipertensos, diabéticos, acamados, casos de HIV/Tuberculose. Porque não é só jogar x consultas/mês de médico, de enfermeiro e de dentista; mas garantir que dentro daquela realidade da comunidade que a UBS serve, deve-se fazer a gestão da clínica para garantir acesso continuado e equânime da população. 

Isso eu levo para o consultório. Eu tenho uma planilha dos meus pacientes. Não adianta eu querer fazer um plano terapêutico com acupuntura, por exemplo se eu não tenho espaço na agenda pra isso. Não adianta eu dizer "volte daqui seis meses" e deixar a responsabilidade toda para a pessoa. O meu papel é garantir que a pessoa tenha o tratamento proposto (medicamento, procedimento) até a próxima consulta e dar a ela a segurança que lá em x meses eu vou ter agenda pra ela, assim como se ela tiver uma intercorrência, eu vou ter disponibilidade para ela. Quando abro a agenda a cada 15 dias, eu priorizo quem já é meu paciente. Minha assistente tem uma lista dos pacientes que precisam de nova avaliação naquele mês e entra em contato antes de abrir para novos pacientes. Não adianta eu ter uma agenda lotada com previsão só para Janeiro se eu não consigo manter (e isso nem é meu perfil). 



DSV: Planejamento é importante para os seus resultados?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Extremamente importante, principalmente porque queremos resultados imediatos. A maioria das pessoas esperam acumular queixas para ir ao médico ou "aproveitam que já estão ali" e confiam muitas queixas e demandas e esperam sair com todas as respostas. O bom da longitudinalidade e do vínculo é que as coisas devem e são organizadas e planejadas. Quando estou na supervisão dos alunos de Medicina lá na UBS eu tento passar a importância do planejamento. A organização das queixas, a priorização das demandas (tanto da pessoa quanto do profissional). O PLANO TERAPÊUTICO além da simples receita muitas vezes é a chave. Às vezes eu tenho que intervir e priorizar as queixas com a pessoa. às vezes, o paciente traz nas entrelinhas demandas que viram prioridades e as outras precisam ver num tempo posterior. É muito importante o planejamento. O bom da longitudinalidade é que este depois dá sim para ser planejado e sequenciado. Nem sempre uma consulta resolve tudo, mas tudo é resolvido em alguma consulta. 

DSV: Carlos, me conta do que você teve que abrir mão para ter a profissão que tem hoje?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Acho que o que foi mais duro para mim foi abrir mão de crenças limitantes. Eu "cresci" na faculdade querendo ser psiquiatra. Hoje entendo muito o motivo disso. Quando eu decidi fazer a residência de Medicina de Família e Comunidade eu fui na "cara e na coragem". Eu ouvi que eu era muito inteligente para ser só "médico de postinho", que não teria uma carreira, uma notoriedade. Eu entrei na residência muito achando que era isso mesmo (e estava tudo bem), porque eu não tinha exemplos de Médicos de Família para me espelhar - minha referência mais consciente foi no último ano da graduação. Hoje entendo e defendo que a MFC é uma especialidade médica como qualquer outra, tem seu espaço e tem seu mérito e cada vez mais não é só e apenas "médico de postinho". 

Quando iniciei a pós-graduação em Acupuntura Médica, eu tive que abrir mão do preconceito. Na verdade, eu comecei a estudar a acupuntura por dois motivos: uma era ver as falhas que tanto se falava de "Acupuntura é só placebo", mas também poder entender a natureza humana e o processo de adoecimento dentro de outra perspectiva além da biomédica contemporânea alopática. Eu fiz pós-graduação durante a pandemia. Eu viajava 500 km 1 vez no mês para assistir às aulas quando voltaram a ser presenciais e a frequentar o ambulatório. 

Mas antes de tudo isso, eu tive que abrir mão de valores que se tem de um médico (na verdade isso foi a parte mais fácil para mim). Tirar essa "capa detentora da verdade irrefutável". Entender que a consulta médica na verdade é um encontro de dois especialistas: profissional especialista teórico, e o paciente - especialista em si mesmo, só o que conhece a si mesmo. E deste encontro é que sai o plano terapêutico - muitas vezes sem pretensão curativa. Ser médico hoje vai além da busca incessante da cura. A gente tem o privilégio de acompanhar as pessoas dentro dos seus processos. Isso é o mais recompensador. 

DSV: O que você diria para quem está começando no mercado de trabalho?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Não sei como é as outras áreas, mas eu vejo mais que na medicina as especialidades na verdade são meios e não fins. No meu tempo de faculdade, a gente tinha a mentalidade de "vou ser cardio, vou ser neuro...", mas é aquilo que eu te falei: isso é centrado na doença. Hoje cada vez mais devemos nos centrar nas pessoas. Seguimos nos nichos? sim, mas menos. Quando eu falo de pessoas com dor crônica, posso ter me especializado em reumato, neuro, ortopedia. Por que não em Medicina de Família? Ser Médico de Família me possibilita ferramentas que são diferentes das de um fisiatra ou médico da dor - não existe o melhor, mas sim o mais adequado para aquela pessoa. Para quem tá começando no mercado eu deixo a seguinte provocação: "com o que você imagina trabalhar?" Na faculdade eu pensava muito em ser psiquiatra. Me dedicaria apenas à saúde mental? Não. Mas eu gostava da ideia de que a psiquiatria me daria o estilo de trabalho que hoje eu tenho como Médico de Família: o vínculo, o cuidado longitudinal ao longo do tempo, a oportunidade de acompanhar indivíduos e famílias dentro de seus contextos. 




DSV: O que você pretende deixar de legado?

Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz: Meu legado é ser o exemplo que não tive. Na UBS que eu trabalho hoje é vinculada ao Hospital de Clínicas e por consequência à UFRGS. Eu quero ser o exemplo "fora da caixa" para os alunos. Esta geração de médicos que está vindo já vem com uma base e uma imagem melhor da Medicina de Família e Comunidade que eu não tive. Todo grupo de estagiários tem um ou dois que cogitam fazer MFC: é mais comum do que na minha época. E muitos vem com a ideia muito restrita do "arquétipo" e da atuação do MFC e quebrar isso é muito bom. 

Para os meus pacientes, nada melhor que os resultados. O processo de educação e de "venda" é continuado. Eu tenho que ser explícito e explicar o que eu posso fazer e o que a pessoa pode esperar de mim. Quando a pessoa começa a ver resultados e tem a percepção que pode contar contigo - ou seja, quando a gente forma o vínculo - é muito recompensador. Não é o discurso passivo de "valorizem o Médico de Família" que vai resolver. É atrelar aqueles valores do médico resolutivo, daquele que coordena o cuidado, daquele que é a referência imediata para o indivíduo e família, aquele que costura o plano terapêutico e que quando não tiver perspectiva curativa, vai estar lá acolhendo do jeito que for possível tanto o indivíduo quanto a família. 





DSV: Indique para nós: livro, filme e/ou seriado e um lugar especial


Carlos Augusto Vieira Ilgenfritz Cilgenfritz

Livros:

Pacientes que curam: O cotidiano de uma médica do SUS (Júlia Rocha)

Diário dos abraços (Mayara Floss)

Série: Unidade Básica - Globo Play

Um lugar especial: Casa da minha avó Verônica. 


Onde encontrar o Médico Carlos Augusto Ilgenfritz Cilgenfritz:

Redes Sociais e Contatos@medico_carlosaugusto

Site: https://carlosilgenfritz.com/

WhatsApp: + 55 (51) 99281-2145





Posts Relacionados:






                                           Entrevista Alex Ramalho Casali - Personal Chef





Sabia que aqui no blog tem mais de 100 títulos que já li e gostei?


Quais assuntos e ou livros você gostaria de ver por aqui? Escreve aqui embaixo ou me manda nas redes sociais:

Instagram: @svdanielle

Facebook: @svdanielle (Descontos e informações)

Tik Tok: @sv.danielle

Facebook: @sobremarmita (Marmita: para levar para o trabalho e ou piquenique)

Facebook: @dsegundamao (Sustentabilidade)

Bom trabalho!

Abaixo banner da evino que é um anunciante aqui do blog. A evino é uma loja de vinhos online que oferece grandes descontos em produtos altamente compativeis. Venha experimentar um novo conceito de saborear o sabor da vida. Clica no banner e vai espiar!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Regras para geladeira coletiva (Material de apoio exclusivo na Loja)

  1 - Lembre que ela é coletiva e não apenas sua:  Os bons hábitos de higiene e limpeza devem prevalecer em uma geladeira coletiva . Mas se você não tem bons hábitos de higiene e limpeza não se preocupe: sempre é tempo de aprender. Os relacionamentos melhoram quando todos respeitam o ambiente coletivo. 2- Armazene os seus alimentos em um espaço específico dentro da geladeira. Um alimento em cada canto, não: ok? Uma maçã em uma prateleira, um pote em outra e a garrafinha em outra: não é prático. Se todos os alimentos estiverem concentrados apenas em um canto da geladeira será mais fácil administrar a validade deles. 3 - Consuma apenas o que é seu!  Pode parecer estranho para alguns essa colocação mas para outros não! É muito comum uns consumirem os lanches dos outros sem permissão? Sim! Não deveria ser assim? Não! Mas sempre é tempo de aprender e ter atitudes melhores . Principalmente, na geladeira coletiva da empresa.  4 - Derramou algo? no mesmo momento: limpe. Cada um deve limpar

Regras para uso de geladeira coletiva? (Material de apoio exclusivo na Loja)

Tenho geladeira coletiva na empresa, precisa ter regras? Sim! As regras, por alguns motivos, são muito  importantes - aqui destaco dois deles: 1)  a cultura da empresa deve estar em todos os lugares (Regras fazem parte da cultura empresarial) e 2) para o bom andamento de qualquer atividade coletiva deve existir regras. Preferencialmente, que as regras sejam postas antes de começar "o jogo" para que todos entendam como devem se comportar. Ter um Guia de uso na porta da geladeira coletiva da empresa ou próximo a ela será útil.  Utensílios que estão à disposição de várias pessoas devem ter regras de uso e higiene caso contrário cada um agirá da forma que faz em casa. E dessa maneira não funciona pois cada ambiente deve ter suas próprias regras e que sejam para todos, principalmente, os ambientes profissionais . Sem regras: um ambiente como a cozinha pode ser um estopim para desavenças e essas desavenças, geralmente, acabam se estendendo para atividades do cotidiano de trab

Geladeira coletiva da empresa: não deixe comida velha!

Assunto que pode parecer um pouco estranho para alguns - já para outros nem tanto! É muito comum, inclusive, as empresas abolirem a geladeira em virtude dos maus hábitos dos colaboradores. Se você é a pessoa que esquece comida dentro da geladeira e nunca mais lembra até criar mofo: anote na agenda uma vez por semana fazer uma limpa ou melhor tenha um dia especial para fazer a limpeza em seus alimentos. Quem sabe todas as sextas-feiras, assim, não fica comida ruim na geladeira no final de semana. A geladeira da empresa é um utensílio coletivo que deve ser tratado com educação e cuidado por todos. Deixar os alimentos envelhecerem dentro dela é o verdadeiro descaso com o resto dos colegas. Não espere que um colega lhe avise que tem algo ruim seu na geladeira. A responsabilidade por manter limpo o que usa é de cada um. Assuma as responsabilidades que são suas e evite estresses desnecessários com os colegas ou com os superiores. Ambiente coletivo todos devem ser colaborativos